Como viajar sozinha?

Indo.

Mas antes, vai ter um ritual.

Você vai contar para sua amiga ou vai ligar para sua mãe e, muito provavelmente receba uma lista das coisas as quais deve tomar cuidado.

Lembro da minha primeira viagem sozinha. Eu tinha doze anos quando saí de ônibus em direção a casa da minha avó. O trajeto de quase dez horas atravessa a Argentina e minha madrinha estaria me esperando na rodoviária, como sempre foi. A única diferença é que, desta vez, eu estaria sem companhia.

Foi assim que eu escutei sobre essa lista. Cuidado quando for ao banheiro. Não deixe a bolsa sozinha. Se qualquer um te incomodar, grita.

Ferrou, pensei enquanto a vi conversando com o motorista: fica de olho, por favor. Posso perder o ponto, minha madrinha pode não me esperar e tomara que eu não precise beber água ou ir ao banheiro.

Minutos antes do ônibus sair eu ainda estava apreensiva.

Não é exagero dizer que estamos tão acostumados a sair em busca dos nossos medos, que esquecemos de observar os momentos onde nosso coração se sente tranquilo.

Ao contrário do que eu imaginei, dormi aquele trajeto inteiro. E não perdi o ponto. É como se nesse momento, o coração conseguisse descansar.

Isso me faz pensar que a minha tranquilidade sempre esteve em viajar sozinha. Eu é quem só descobri depois.

Você sabe onde mora sua tranquilidade?

A segunda lista é você mesmo quem vai fazer. Baixar alguns aplicativos, organizar a agenda que fica.

Eu tinha um ritual: um livro para levar bolsa.

O ritual parecia legal, até eu perceber que era apego. Eu só o lia na sala de embarque. No primeiro dia de viagem normalmente eu trocava. E eu o trocava porque ao chegar no destino, outro título, assunto ou história passava a fazer mais sentido.

Talvez viajar sozinha seja justamente dar a oportunidade para outras coisas começarem a fazer sentido.

Abrir espaço.

Durante uma “surf trip” gravei um vídeo me arrumando para jantar. Uma amiga me enviou mensagem, apavorada.

Como, além de viajar sozinha, é possível que alguém consiga fechar um colar sem ajuda?

Dei risada. As coisas vão se tornando naturais pelo caminho.

E muitas vezes, a gente nem percebe. Viver sem questionar, por alguns momentos, faz bem.

Organizando a mala a gente coloca junto muito do que já foi, do que pode ou do que ainda vai ser.

O fato é que você vai. Indo.

Talvez com um ritual. Talvez o monte pelo caminho.

Talvez perceba que se sente segura sem ele.

Mas eu espero que você vá com um lembrete: de que o medo da primeira lista pode se tornar empolgação.

Eu espero que indo você consiga fechar o colar sozinha mesmo que, em algum momento, faça mais sentido que ele seja fechado por outro alguém.

Eu espero que, na verdade esse seja um lembrete.

Para você embarcar onde seu coração já embarcou.

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