Quantos encontros cabem em um dia?
O primeiro deles: a trilha de Vernezza para Cangliari é uma das mais bonitas, segundo dizem. Mas se você estiver de havaianas pode acabar sendo vetada como eu fui - a não ser que esteja disposto a correr o risco de pagar uma multa de 500 euros.
pelo menos encontrei alguns dos famosos azulejos espalhados pela trilha.
Durante o trajeto pelo Cinque Terre parei para pedir uma foto a um grupo de mulheres em frente a igreja. “Mas você viaja sozinha? Desde quando?” Senti a curiosidade de quem, beirando os 52 anos, estava viajando sozinha com as amigas pela primeira vez.
Aproveitei para contar aquela história, da menina que saiu de casa há dez anos pela primeira vez. Senti a curiosidade se tornando um incentivo.
Em poucos minutos também adicionei as praias espanholas na minha lista de lugares para conhecer e descobri que, muito provavelmente, Madrid e Barcelona não terão meu coração tão fácil assim.
Eu sei que nossa conversa durou oito minutos pois foi o tempo que precisei para (quase) perder o trem.
Corri pelas escadarias e agradeci baixinho a minha mãe - era como se fosse a vida me mostrando que eu também tenho aos outros o que ensinar.
Às vezes a gente é acostumado a só escutar e aprender.
Voltando a Varezze, resolvi dar uma volta: existia uma areia me incomodando depois daquela conversa. Depois de algum tempo viajando sozinha você passa a perceber que também é gostoso ter alguém para comentar sobre aquele azulejo perdido.
Lembrei da minha tatuagem: be brave. Respirei fundo e agradeci. Os dias de veraneio europeus são infinitos e fomentam a sensação de dolce vita.
A vida tem uma maneira engraçada de mostrar que a gente precisa rir com urgência.
No caminho, uma parede meio escondida avisava: sem conservantes ou aditivos e com todas essas outras características das quais sou fã.
As seis da tarde resolvi entrar para conhecer. Sem muita simpatia o senhor foi direto ao ponto: fecharia em 20 minutos e o tamanho pequeno era só uma opção de sabor.
Fiquei nervosa: não sei escolher sobre pressão. Eu tenho essa mania de querer experiemntar tudo que é local e artesanal e aquele era o dia da famosa lasanha ao molho pesto genovese.
“A sobremesa antes do jantar pela primeira vez têm que valer muito a pena" pensei comigo.
Era meu ultimo dia nas cinco ilhas, me dei o direito de quebrar um padrão.
Um mundo se abriu quando eu finalmente entendi que, a comida é de fato um dos mergulhos mais profundos na cultura de um país.
Escolher o de pistache me deixou nervosa em dobro: entre meus sabores preferidos eu percebi que aquele foi o melhor sorvete que eu já comi na minha vida. E não é exagero.
Eu saí caminhando pela praia com o olho no relógio: 7 minutos até a sorveteria fechar. Voltei.
Eu não sabia o nome mas aquele senhor merecia um elogio e eu merecia conhecer a história por detrás daquela rabugência toda.
Foi assim que eu agradeci minha mãe pela segunda vez no dia - “a gente sempre quebra com gentileza” ela me ensinou.
Subindo pela Piazza Central.
Passei pela loja da Katrina e encontrei uma mesa simpática na sacada da vinoteca. Parece que estava me esperando e havia tempo até o por do sol.
"Você está sozinha?” Eu dei risada.. A mesma pergunta que eu havia escutado mais cedo. A garçonete estava ao lado de uma mesa de duas mulheres. Tinha uma cadeira vaga e eu não recusei o convite.
Seria aquele o meu terceiro encontro em um dia?
Os oito minutos do primeiro encontro se somaram aos vinte do segundo e resultaram em uma troca genuína de sorrisos, fraquezas e muita admiração.
Eu não sabia que poderia fazer o olho de duas mulheres brilhar ao compartilhar minha história.
Aposto que elas também não sabem que eu escrevi cada conselho que trocamos.
A verdade é que a gente não precisa esperar o por do sol para lembrar que qualquer resquício de areia têm o tamanho que a gente permite.
O maior aprendizado do jantar: não viva para trabalhar, esse pode ser seu arrependimento. mas também, não trabalhe apenas para viver. daqui uns anos, esse pode ser o seu arrependimento.
O segundo maior: sempre há espaço para as comidas típicas.
Eu não sei se era o pesto genovese ou a companhia mas, foi a melhor lasanha, o melhor sorvete e há muito tempo, os melhores encontros.
O espírito jovem e a amizade de vinte anos entre aquelas duas mulheres me fez pensar na minha mãe pela terceira vez.
Cheguei até a beira-mar e liguei por vídeo. Ainda faltava esse encontro.
Dessa vez, emotiva eu recebei colo mas entreguei também. Como no primeiro encontro, como no segundo e como no terceiro do dia.
Com o passar do tempo, a gente esquece que também faz o outro se sentir bem.
”Mãe, a nossa tatuagem. É uma nova fase. Seremos corajosas.”
Eu não consegui contar quantos aprendizados cabem em oito minutos, em uma ida à sorveteria ou entre aqueles vinte anos, de amizade.
E ainda bem. Os novos bahianos nunca tiveram tanta razão.
"Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto.”